Mais do que um barco
História do moliceiro
Uma história feita de tradição e identidade, que atravessou gerações e que procuramos manter viva.
Antes de se tornar uma das imagens mais reconhecidas de Aveiro, o moliceiro estava ligado a uma atividade essencial à vida da região: a apanha do moliço. Foi desta vegetação aquática, recolhida no fundo da ria e utilizada para fertilizar os campos, que nasceu o nome da embarcação.
O moliço era um conjunto de plantas aquáticas e algas que crescia no fundo da Ria de Aveiro e que, durante gerações, teve um papel essencial na agricultura da região. O nome também identificava os homens que passavam os dias na ria a recolher esta vegetação, numa atividade que marcou a vida das comunidades ribeirinhas.
Muitos dos terrenos junto à ria eram arenosos e pouco propícios à agricultura. Era o moliço que ajudava a transformá-los em terras de cultivo. Espalhado ainda verde ou depois de seco ao sol, em terrenos ligeiramente inclinados conhecidos como zalhadas, era utilizado como fertilizante natural. No livro «Moliceiros», editado em 1971 pela Comissão Municipal de Turismo de Aveiro, esta transformação é descrita como a passagem de terrenos arenosos a «excelentes terras de cultura».
A apanha do moliço exigia força, experiência e paciência. Nas zonas mais profundas, fazia-se com o barco em movimento. Dois a quatro ancinhos de arrasto, presos lateralmente e colocados na diagonal, percorriam o fundo da ria enquanto o moliceiro avançava lentamente à vela. Cada ancinho tinha um cabo de eucalipto, com quatro a seis metros de comprimento, e um pente de carvalho com 64 dentes. Quando vinham carregados, o moliço era puxado para dentro do barco. Ao conjunto de percursos de arrasto necessários para encher o barco chamava-se maré de moliço.
Nas zonas menos profundas, a recolha fazia-se a pé, dentro de água, com ancinhos mais pequenos, de cabo com cerca de dois metros e doze a catorze dentes.
A venda era combinada no cais. O agricultor indicava ao moliceiro a quantidade de que precisava e pagava em dinheiro ou, por vezes, com produtos da horta. Assim, o barco partia para a ria já com uma encomenda definida. Cada moliceiro podia transportar até cinco toneladas de moliço, que depois seguia do cais para os campos em carros puxados por bois.
Hoje, a apanha do moliço já não faz parte da atividade da ria. Mas o barco que nasceu dessa prática continua a navegar pelos canais de Aveiro, conservando no nome a memória da planta que durante séculos alimentou os campos da região.
É essa história que acompanha cada Passeio de Moliceiro. A partir do Cais dos Botirões, é possível percorrer os cinco canais urbanos de Aveiro, ao nível da água, a bordo de uma embarcação que faz parte da identidade da cidade. Durante o percurso, a tripulação dá a conhecer a origem do barco e a atividade que lhe deu nome.
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